Frango ao molho pardo
Quando eu era criança e chovia, minha avó rezava o "salve a rainha", eu com minha dificuldade de memória, tentava ouvir aquele sussurro de fundo "Salve a rainha mãe de misericórdia. ." eu achava aquela oração a mais difícil, pois era cheia de palavras que eu não conseguia entender. Minha avó dizia que tínhamos que orar pelos desabrigados, e quando eu fecho meus olhos, eu lembro do cabelo lisinho preto, e das mãos que se encontravam segurando um terço bem simples... Tivemos uma relação de amor e ódio, e vez em quando eu lembro dela me jogando água benta, e rezando o terço da libertação pra ver se eu sossegava. Implorou ao padre que me desse a primeira comunhão que ela tanto fazia questão, mesmo sem eu ir um dia a catequese! Eu achava aquilo tudo um tédio, e só pensava em cantar no coral da igreja. No dia da primeira comunhão fez bolo, chamou um monte de gente, parecia um aniversário, aí em seguida disse que eu tinha que crismar pra casar! Eu pensando ( pois eu não crismo mesmo). Minha avó era quem me salvava das surras, quem me expulsava também da casa dela porque eu respondia, subia no pé de manga e balançava alto de um barranco pelos galhos... Ficávamos cada uma deitada numa cama, e ela rezando em latim, eu achando a coisa mais bonita do mundo! Contava as histórias do colégio de Freiras, falava francês e nós assistiamos a novela que passava o Antônio Fagundes (ela era apaixonada por ele). Brigava comigo porque eu pegava as jabuticabas verdes, e porque mexia na lenha do fogão de levadeza. Banho de serpentina, eu saia toda vermelha quase soltando a pele, e no domingo era dia de frango ao molho pardo. Ela guardava o coração que também era a parte preferida da minha tia, e falava pra eu pegar o prato "depressa", antes que alguém visse. Arroz e frango ao molho pardo, o gosto tinha uma coisa meio azeda, e ela servia junto polenta ( que eu odiava). Fui para Belo- Horizonte estudar e minha avó adoeceu, desmaiou algumas vezes e foi internada... Eu, que não sabia andar direito em Belo- Horizonte, pedi a Rafa que me levasse ao hospital. Minha avó estava sentada com uma roupinha vermelha, tinha perdido uns quilos, ficou surpresa com minha ida e me deu 20,00 reais pra voltar pra casa. Dias depois teve alta, foi pra casa da Tia Rosa, sentiu umas dores e foi levada para o hospital outra vez. Eu estava me arrumando pra ir ao cursinho, quando o telefone tocou e a pessoa não conseguia dizer nada além de "A sua avó"... Hoje quando vejo minha mãe tão parecida, me dá uma dor no meu coração que eu choro duas vezes, uma de felicidade, e a outra saudade. Desde que ela foi embora, eu nunca mais comi frango ao molho pardo.
Comentários
Postar um comentário